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Meus Heróis do Colarinho Azul (Conto) José Dagoberto Braz

 

Meus Heróis do Colarinho Azul

 

O jovem Jonas, ao apertar o botão daquela desconhecida máquina no seu primeiro dia de trabalho, naquela grande fábrica, não imaginava que, a partir daquele simples momento, aquele botão ligaria também a realidade que conduziria a sua vida dali em diante.

Jonas nasceu e cresceu em um ambiente muito simples e seus heróis imaginários sempre foram os mesmos de muitas crianças, como Batman, Super-Homem, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha, Zorro e todos que a mídia sempre apresentaram como lindos, maravilhosos e invencíveis.

Mas o jovem Jonas, agora no auge de seus apenas 20 anos, aprenderia que heróis de verdade em um mundo real são forjados e lapidados através de situações reais como: angústias, lutas, choques, decepções, conquistas, frustrações, alegrias, tristezas, companheirismo, falsidades e todos os sentimentos inerentes ao ser humano normal de carne e osso.

Tudo em silêncio e eis que se ligam as máquinas e começa o grande espetáculo da vida real; barulho ensurdecedor acima de 85 decibéis, máquinas transformando matéria-prima em produto, operários como soldados exercendo sua função no front, operando máquinas frias, calculistas sem alma e impiedosas com descuidos e desatenções, jornadas cruéis de até 12 horas diárias. Pessoas comuns como: João, Márcia, Pedro, José, Marlene, Wilson, Maria, Carlos, Tereza, Aurora, Joaquim e tantos outros, mas todos uniformizados e trajando seu uniforme azul. A grande maioria é muito experiente, na faixa de seus 30, 40 anos de idade, e Jonas ainda um piá, tenro, novato e apenas um iniciante aprendiz no meio de todo aquele universo de pessoas culturalmente diferentes e já calejadas pelas experiências da vida.

O tempo vai passando e Jonas vai se enturmando com aquelas pessoas, dia após dia, semana após semana, mês após mês, e o jovem aprendendo cada vez mais, desde que acionou pela primeira vez o botão daquela fria máquina sem alma. O barulho não cessa, assim como peças uma após a outra vão sendo produzidas em quantidades sem fim, por aqueles valentes soldados em seu fardamento de colarinho azul.

Mas, igualmente como no mundo dos heróis imaginários, onde também existiam os vilões e antagonistas, neste mundo agora real de Jonas também existiam esses vilões, e eles eram todos humanos de carne e osso. A pressão aumenta por demandas maiores, benefícios auferidos no passado são retirados, injustiças e perseguições são praticadas, o diálogo fica escasso e a truculência se impera de vez naquele ambiente. Nesse momento, homens que trilhavam por um caminho pacífico e harmonioso agora se rebelam, enfurecem-se e soldados/operários que seguiam por este mesmo caminho e traçado agora se dispersam.

O que fazer? Máquinas agora reproduzem impaciência, raiva, ódio, intolerância e sentimentos muito negativos que contaminam todo aquele cenário. Jonas fica apreensivo, mas toma a atitude correta: fica do lado dos bons e justos! Os amigos e colegas que carregam tudo aquilo com seus braços e força e remam solidariamente juntos na mesma direção. O clima esquenta, radicaliza-se, e atitudes extremas são planejadas, no caso uma greve geral. Jonas, agora com pouco mais de 22 anos, ainda é visto como um jovem inexperiente pelo demais colegas, o que, na realidade, ainda era.

Em uma atitude surpreendente, como se tivesse tirado aquilo de seus heróis imaginários da infância – mas não, pois era o que ele tinha dentro de si sem ainda ter sido descoberto ou deslanchado. De corpo e alma, engaja-se naquele movimento. Participa ativamente das reuniões, ajuda com ideias e sugestões na elaboração da pauta de reivindicações, ajuda na mobilização e conscientização dos colegas ainda indecisos e receosos, e com isso vai ganhando a simpatia e o respeito dos seus amigos e colegas de trabalho. Mas o maior patrimônio que aquele jovem estava produzindo para si mesmo seria a experiência positiva de vida, adquirida naquele processo todo.

A batalha foi vencida e reivindicações conquistadas, após toda uma sequência de atos bem organizados por aquele movimento de operários como: estratégia, união, força de vontade e principalmente coragem! Movimento de homens honestos e de bem, pais de famílias e todos dignos cuja maior virtude e conquista para Jonas foi a de conseguir adquirir o respeito e confiança daquelas pessoas e quebrar uma possível desconfiança pela sua ainda pouca idade e inexperiência.

Vida que segue. Após todo aquele episódio, as coisas parecem voltar aos trilhos e à sua normalidade. Ledo engano, já que os vilões, estes de carne e osso também, que travaram a batalha do lado oposto, ainda permaneciam no mesmo local, nutrindo um sentimento de vingança e troco pela ousadia daqueles “meros subordinados” e soldados rasos, como sempre foram considerados.

O tempo vai passando e aquelas máquinas voltam a produzir novamente esperança, confiança, paz e harmonia naquela linha de produção, mas o que Jonas presenciaria logo após esse breve período de bonança e águas calmas seria outra experiência, agora de mar revolto com tempestades e fortes tormentas. E nem seriam os inimigos e vilões dessa história que as provocariam, e sim nasceriam de dentro do organismo saudável daquele próprio movimento, e que é um inimigo mortal quando não controlado e vigiado de perto, denominado EGO. O ego! O maldito ego presente dentro de cada ser humano. Quando não policiado, derruba qualquer um mesmo. Foi o que aconteceu justamente com os chamados veteranos e mais experientes daquele movimento. Por quê? Porque essas pessoas com o ego agora inflado e não conseguindo se segurar começaram a se sentir com total controle da situação, como se fossem as donas da fábrica e se embriagando em um falso poder (mais irreal do que os heróis da infância de Jonas).

Pronto, estava criado um terreno fértil para outra instabilidade e um incêndio difícil de se debelar e foi justamente o que aconteceu, onde os conflitos começaram a aflorar dentro do grupo e um distanciamento se criou. Com o ego inflado, os líderes começaram a olhar o restante de cima para baixo. O resultado disso foi que o grupo perdeu a união, ficou disperso e com esse desgaste constante acabou por rachar, o que deu a oportunidade esperada para que os antagonistas “vilões” dessem o esperado troco e colocassem a prometida vingança em prática, já que a única forma de se manter aquela chama acesa e o processo em andamento fortalecido seria somente através da homogeneidade coletiva daquele grupo, o que não foi possível devido à implosão interna. Isso permitiu abrir uma brecha para uma verdadeira caça às bruxas e demissões após o primeiro período de estabilidade combinado, colocado em pauta e uma das conquistas nas reivindicações, mas que foi perdido graças ao esvaziamento de todo o movimento. E o que Jonas poderia fazer nesse momento seria apenas lamentar, por viver e ter feito parte de uma linda história inicialmente feliz, mas, ao contrário da ficção, o final seria muito triste, e os vilões saíram vitoriosos.

Após todo este episódio e tristeza, Jonas já previa que seu ciclo ali estava terminando, uma jornada intensa que durou pouco mais de 1.095 dias (3 anos). Já estava com 23 anos. Não tinha mais motivação naquele pesado ambiente e resolveu que precisaria sair e retornar aos estudos, uma vez que, naquela rotina de turnos com revezamento, teve de interromper a frequência na escola, o que era difícil mesmo. Isso porque, na década de 1980, não havia as facilidades dos dias atuais, com possibilidades de cursos em horários flexíveis e on-line.

As máquinas e o barulho intenso estavam encerrando-se naquele momento para aquele Jonas, mas o movimento e o barulho que lapidaram e formataram o novo Jonas o acompanhariam pelo resto de sua vida. Mesmo sabendo que estava saindo e se desligando, sentiu uma tristeza enorme quando tudo aquilo acabou e aquela história ficou para trás; a vontade de abandonar logo aquele lugar não foi pelo triste fim, mas por saber que aqueles intensos momentos que duraram três anos não voltariam mais, o que provoca uma nostalgia nele toda vez em que passa em frente daquela fábrica, pois sempre parece que foi tudo muito recente.

Esse momento foi tão importante e marcante para Jonas que ele guardou para toda a vida o seu fardamento de cor e colarinho azul, pois o considera como um documento de identidade, já que ali descobriu e teve contato com seu verdadeiro DNA, juntamente com aqueles homens do chão de fábrica considerados por ele como mestres e doutores da vida (e olha o que tem por aí de ignorante e analfabeto graduado é uma grandeza).

E Jonas voltou, então, para as salas de aula, no começo se sentindo um pouco estranho pelo tempo fora das salas, mas logo se habituou novamente, pegou firme nos estudos e terminou o ensino médio que faltavam dois anos para concluir. Após isso, fez vestibular, passou e concluiu o curso de Direito. Depois de mais 4 anos, prestou exame da ordem OAB, e Jonas agora é um advogado. Para ele, esses 6 anos estudando foram uma extensão daqueles 3 anos vividos intensamente dentro daquela fábrica, e até brinca que esse período foi bem mais tranquilo do que enfrentar e passar com 20 e poucos anos por aquela história real, em que os heróis e os vilões eram de carne e osso, totalmente reais, tendo descoberto que nem sempre a história tem um final feliz, como agora na conquista da sua formatura.

O tempo não para, e, com o passar dos anos, Jonas trabalhou como assistente em um escritório de advocacia; a seguir, foi contratado por uma empresa para trabalhar e fazer parte do seu departamento jurídico, locais de trabalho onde, às vezes, o silêncio é mais ensurdecedor do que as frias e barulhentas máquinas da antiga fábrica, assim como os perigos e os lobos muitas vezes podem estar travestidos de cordeiros, neste universo agora do colarinho branco. E foi nesse local que Jonas, agora com mais de 30 anos, teve uma grata surpresa. Isso ocorreu em um dia quando teve de se deslocar até a produção (local que lhe era muito familiar) para entregar alguns documentos para o gerente do setor. Esse local era bem distante de onde ficava o seu departamento (jurídico); foi quando aconteceu algo muito bacana. De longe, ele avistou um funcionário operando um torno CNC (máquina que na sua época nem existia). Não sabia o seu nome, porém se lembrou dele no mesmo momento em que o viu, pois trabalhou na mesma empresa no período daquele movimento. Trabalhava em um outro setor, mas sempre estavam discutindo os problemas e as ações em conjunto.

Jonas entregou os documentos rapidamente e na volta desviou o caminho e se aproximou da máquina em que esse operador trabalhava, e ele gentilmente pausou a máquina, tirou o boné e, aproximando-se, estendeu a mão para Jonas, que retribuiu rapidamente, mesmo ele também sem se lembrar ou saber o seu nome, já que na época eram muitas pessoas participantes na mobilização daquela fábrica. Entretanto, o que prevaleceu e ficou intacto, mesmo após depois de tanto tempo, foi o respeito conquistado através da honestidade e confiança entre aquelas pessoas. Ações que o tempo dificilmente apaga, principalmente quando se é fiel e não se trai a confiança das pessoas e, mesmo num breve momento de reencontro entre antigos companheiros, poder se sentir gratificado por um olhar de agradecimento sincero e por ter sido um companheiro e parceiro leal em um momento de luta.

Durante algum tempo, Jonas teve a felicidade e a satisfação de, algumas vezes, poder reencontrar por acaso com algumas daquelas pessoas, e os apertos de mão foram sempre dessa forma, sinceros, carregados de respeito mútuo e sem ninguém precisar abaixar a cabeça por remorso de alguma atitude e bem diferente de alguns “vilões” daquela época.

Jonas hoje está com bem mais de 50 anos, é casado, tem filhos e até já é avô. A última vez que reencontrou com alguém daquela época foi há mais de 10 anos e mesmo assim o sentimento de respeito sempre prevaleceu, pois situações que marcam não morrem. Nos dias atuais, pela idade de Jonas e mais de 30 já passados, possivelmente a maioria daquele pessoal já tenha falecido, contudo o que jamais sairá de dentro de Jonas e estará enraizado com ele até chegar a sua vez de fazer a passagem deste para o outro plano será dizer com muito orgulho e certeza que os seus heróis nunca foram imaginários e sim verdadeiros, denominados por ele Jonas como os… Meus Heróis do Colarinho Azul.

Esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com nomes e acontecimentos reais é mera coincidência.

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Muito obrigado por ler meu conto.

Autor: José Dagoberto Braz

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