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HÁ SACI NATO (Conto) Nunes Guerreiro

É de manhã e o caçador sai recolhendo as armadilhas que espalhou pela floresta no dia anterior.

Fica surpreso ao avistar dentro de uma delas, um ser, um animal estranho, até parece gente.

Aproxima-se com cuidado e nota que ele está mais assustado que bravo.

Chegando perto, leva um enorme susto acompanhado de uma alegria maior. Pegou o Saci Pererê!

Leva-o logo para a cidade grande, pois ganharia muito dinheiro com ele. A viagem é bem longa. No caminho, para acalmá-lo, o caçador diz que todos no país já o conhecem e as crianças o adoram.

Saci fica muito perturbado, pois sempre acreditou que o mundo fosse somente a sua floresta.

E esse homem é o primeiro ser humano com quem teve contato, apesar de entender e falar a sua língua.

O Saci Pererê sente uma enorme dor no peito, parece que as raízes que ligam o seu coração àquela floresta, seu lar, estão sendo arrancadas impiedosamente, devastando toda a natureza da sua vida.

Apavorado, pede, chora e implora para não ir. Inútil, é mais uma vítima do tráfico infantil.

O caçador ameaça dar-lhe uma surra de chicote ou machucá-lo com a faca se não ficasse quieto.

Disse ainda, que na floresta é um órfão e que ninguém cuidaria tão bem dele como na cidade.

O caçador obriga-o a vestir roupas, só não consegue tirar-lhe a touca vermelha e o cachimbo, eles sempre foram e serão sua identidade, a sua marca registrada por toda a história.

Sentindo que não adiantaria resistir, decide guardar as suas forças para um melhor momento.

Saci começa a tentar imaginar como seria sua vida na cidade e os costumes dos civilizados.

Chegando na periferia da cidade grande o criminoso caçador o tira da jaula e segura seu braço.

Adultos e muitas crianças vêm ao seu encontro gritando: – Vejam, parece um saci!

Lembra-se então, quando o caçador falou de sua fama, inclusive junto às crianças, e revela a elas: – Esse é mesmo o meu nome, Saci Pererê!

As crianças riem e questionam: – Se você é mesmo o Saci Pererê, responda por que é que nas suas histórias nunca sai fumaça desse seu cachimbo? E se você não fuma, porque o usa então?

Saci levou um grande susto, pois é lá na floresta que sempre buscou a explicação do porquê de ter que passar toda a sua vida carregando na boca essa coisa estranha e sem sabor, feita de pedaços do talo da folha do mamoeiro, que denominam cachimbo e serve para fumar e nem sabe o que é fumar.

O caçador vendo o saci se entrosar bem com as crianças solta seu braço, mas fica perto vigiando.

De repente, Saci sai saltitando numa disparada louca, corre mais que as crianças e o caçador que têm as duas pernas e some.

Embrenha-se favela adentro, percebe que é bem diferente da floresta, mas tão grande quanto ela.

Uma garotada o acolhe. Ele entra para essa turma, pois possuem muitas dificuldades em comum.
Por essa fuga, ganha da comunidade o apelido de Saci, mesmo que não fosse esse o seu nome.

Sem raízes, ele mora solto, tal qual um bicho, uma ave, uma borboleta e quando quer alguma comida vai pegá-la, como fazia na floresta.

Mas, ali na favela, tem que sair correndo dos adultos e comer escondido para não ser surrado.

Saci, casualmente, passa em frente de um açougue e até parece que algum espírito da selva angustiado tomou conta de seu corpo, tornando-o incontrolável e indomável ao sentir aquele cheiro de carne e sangue mortos.

Aquilo o deixou confuso, furioso e arredio, pois sabe que todas aquelas carnes são cadáveres de aninais, mas não consegue identificá-los em sua memória da floresta.

Começou a rosnar, grunhir e – em posições de defesa e ataque – investia contra as vitrines cadavéricas e as pessoas que ali estavam comprando carnes.

Foi um momento muito tenso para todos, pois ninguém conseguia controlá-lo. Machucava e agredia raivosamente quem se aproximava.

O açougueiro chegou a pegar um revólver que tinha consigo e apontou para a cabeça do Saci com o propósito de abatê-lo imediatamente.

Mas surpreendentemente, Saci se acalma. Todos estranham.

Ele vai aliviando sua tensão, olhando surpreso, admirado e – de certa forma – arfante e feliz ao perceber que do outro lado da rua.

E lá estava passando uma fêmea da sua espécie, mesma faixa de idade, exibindo a esbelteza da borboleta, a elegância da garça, a beleza da tigresa, a doçura de uma flor e os movimentos leves de uma nuvem.

Saci fica mais confuso ainda, porque na floresta era único.

Está tão desnorteado que a deixa ir embora.

Mas de onde estava, conseguiu captar sua essência, incorporar ao próprio ser, seu cheiro animal e este já está registrado em seu cérebro, é o seu par, o encontro de almas é, apenas, uma questão de tempo.

Nessa nova fase de sua vida, talvez tenha sido a melhor noite de sono.

Acorda deslumbrado, feliz e desnorteado por ter sonhado com ela, mesmo sem entender o que é sonhar.

No dia seguinte, conhece um pessoal que o leva várias vezes a uma bela casa e colocam-lhe uma perna mecânica.

Essa perna é bonita, dobra bem o joelho, o calcanhar e os dedos do pé, mas não é de osso. É de aço.

Saci sente que uma perna a mais lhe impôs inúmeros limites e terá que reaprender muitas coisas.
Ele tem a estranha e incômoda sensação que seu corpo foi dividido em duas partes e que, – agora – para andar ou correr terá que movimentar um lado de cada vez.

Esses novos hábitos deixaram todos os seus pensamentos confusos e o corpo sem equilíbrio. Quer voltar a ser normal!

Já é impossível, pois suas as unhas foram aparadas.

Percebeu e revoltou-se porque cortaram suas garras.

Agora, não conseguirá mais cortar ou descascar frutas, intimar pessoas ou animais, se coçar, subir em árvores ou muros e cortar galhos ou afiá-las em pedras.

Sempre gostou de ser do jeito que nasceu – livre – com uma perna só e as garras para proteger-se, movimentar-se e alimentar-se!

Mas não pode ser o que quer, pois as outras pessoas o deixariam de fora de quase tudo que fossem fazer.

Seu novo mundo não já não é mais só seu.

Pela a agilidade adquirida na floresta, destaca-se em qualquer situação, por mais difícil que seja.

O único momento que Saci conhece o medo, aliás, a pior de todas as novas sensações até agora sentidas, é quando seu corpo está apoiado na perna postiça, sente perder o contato com o mundo, parece até que a morte tira o chão debaixo do seu único pé.

Sem família, Saci torna-se mais um menor abandonado na cidade grande. Um delinqüente. Seu calção e a touca vermelhos estão sujos e esfarrapados.

Conhece muitos outros “sacis” de várias raças e idades também alijadas da vida da cidade.

Saci é culto na floresta, mas analfabeto na cidade.

Com o conhecimento adquirido na floresta, manipula folhas e ervas criando novas drogas.

Excluído, cresce rápido, torça o velho cachimbo por um de madeira de lei, com detalhes em brilhantes.

Saci vira traficante de animais silvestres e drogas, assaltante e assassino impetuoso.

Descobre uma função, que a considera ideal, para o uso do seu cachimbo, fumar crack.

Então, Saci utilizando a desgraça financeira das pessoas da favela, monta uma linha de produção de cachimbos.

Saci conhece de tudo: drogas, prostituição, solidão, violência, preconceito, aids, aedes, fome e morte.

Passa a vida em coma, viadutos, viaturas, celas, internatos, hospitais, hospícios, casas e acasos.
Recebe muitas surras de adultos e quando não pode bater, rebate à bala. Abate. Mata. Abala.

Saci, de novo, vira fábula e fica tão famoso – ou mais – como quando morava na floresta. Torna-se, de novo, conhecido em todo o país.

É adorado pelos bandidos e temido pelas crianças.

É de novo caçado. E como perdeu a ingenuidade, já não cai mais nas armadilhas que lhe preparam.

Agora são a lei, a polícia e a imprensa que escrevem e registram as suas novas histórias.

Certa vez, fugindo da polícia, tiros de metralhadora e o medo foram mais rápidos que o Saci Pererê e amputaram a perna que Deus lhe deu.

Apoiado na outra, ele perde o equilíbrio e a vida. Vira um saci sem pernas.

Pior, sem elas, não é mais o Saci.

Pererê então, morre, volta a ser invisível e a morar no mundo imaginário das pessoas, transformando-se, agora, numa nova lenda.
nunes guerreiro

 

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Nunes Guerreiro

 

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Comentários 2

  1. Olá! Canal Livro e Escritos

    Ao autor Nunes Guerreiro, Olá! e seja bem vindo neste nosso espaço.
    Grande Abraço!
    Olá! Canal Livro e Escritos

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  2. Olá! Canal Livro e Escritos

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    Olá! Canal Livro e Escritos

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